|
Visando a divulgação e o fortalecimento dos conteúdos
digitais disponíveis sobre a fauna brasileira, ABFPAR criou a seção
"Brasil: conhecer para conservar", dedicada à veiculação de
informações introdutórias sobre espécies, dados biológicos, áreas de
ocorrência e principais ameaças enfrentadas pelas aves de rapina no
Brasil.
Em seu primeiro artigo, a seção "conhecer para
conservar" aborda uma das mais belas e imponentes aves de rapina
brasileiras: a harpia.
Também chamada de gavião-real, gavião-de-penacho ou
uiraçu (do tupi, uirá: ave, açu: grande), a harpia (Harpia harpyja),
com até 2,0 metros de envergadura e pesando de 04 kg (machos) a até 09
kg (fêmeas), é a ave de rapina mais possante do mundo.
Mesmo aves de rapina maiores, como a águia marinha de
Steller (Haliaeetus pelagicus), que ocorre na Ásia e tem
até 10 kg e 2,5 m de envergadura, não possuem força comparável à de
nossa harpia.
As garras da harpia podem alcançar quase incríveis 7cm
de comprimento, um tamanho comparável ao das garras dos grandes ursos
americanos.
Munida de armas tão potentes, a harpia consegue dominar
animais de médio porte como preguiças, mutuns, macacos-bugios,
pequenos veados e porcos-do-mato que ela espreita escondida nas
árvores à beira de riachos e barreiros onde suas presas vem beber ou
buscar o sal armazenado na terra.
As penas da cabeça da harpia são claras e formam um
disco facial que se divide no topo em dois cornos negros formados por
longas penas pendentes. Este disco facial estende-se quando a harpia
eriça as penas da cabeça e, assim como acontece com as
corujas-de-igreja, ajuda na condução dos sons até o ouvido, ampliando
a sensibilidade auditiva da harpia.
Sua coloração geral é acinzentada, com tons de
cinza-escuro e negro no dorso e tons mais claros no ventre. Os jovens,
entretanto, apresentam-se brancos, escurecendo sua plumagem após 3 ou
4 anos de vida.
Ave de porte majestoso, a harpia voa combatidas
rápidas, intercaladas com trechos de vôo planado. Nas horas quentes do
dia pode ser vista circulando sobre a floresta e campos adjacentes
aproveitando as correntes de ar quente para planar e percorrer seu
território.
Na Amazônia, costuma nidificar em árvores altas, como a
sumaumeira (Ceiba oentandra) ou a castanheira (Bertholletia
excelsa), que dominam a mata, permitindo-lhes descortinar todo o
horizonte ao redor. O casal aproxima-se do ninho com cuidado,
ocultando-se na mata e subindo para o ninho apenas quando alcançam a
árvore certa. O ninho é feito de uma pilha de galhos que são retocados
a cada estação reprodutiva.
Registros para o estado de Goiás apontam época de
postura entre setembro e novembro, entretanto, dos dois ovos
normalmente postos, apenas um filhote costuma ser criado com sucesso.
Sua reprodução é dificultada ainda pelo longo intervalo entre períodos
reprodutivos: até 03 anos entre a eclosão dos ovos e a próxima
tentativa de reprodução, provavelmente o maior intervalo reprodutivo
entre todas as aves de rapina brasileiras.
As harpias ocorrem do México até a Bolívia e Argentina.
No Brasil, as harpias são atualmente mais encontradas na Amazônia,
tendo escasseado no sul e no litoral devido ao avanço dos
desmatamentos e queimadas nessas regiões.
Além da destruição de seus habitats, as harpias
são ameaçadas ainda pela sua procura como troféu por caçadores e
índios. Algumas tribos indígenas ao longo Xingu chegam a montar
grandes gaiolas chamadas apuin nas quais filhotes de harpia,
considerados a uma representação do próprio cacique, são criados para
terem suas penas cortadas para uso como enfeites e emblemas.
Para saber mais:
SICK, Helmuth. Ornitologia Brasileira. Brasília: UNB, 1985
The Peregrine Fund
Birdlife intenational |