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Com a notícia, dada
pelo presidente americano Bill Clinton em julho de 1999, de que a ave
nacional, a águia-careca (Haliaeetus leucocephalus), havia sido
retirada da lista de espécies sob risco de extinção graças aos
esforços de programas de conservação conduzidos pelo governo, ambientalistas em todo o mundo congratularam-se pelo
desenvolvimento de uma tecnologia capaz de permitir a reprodução,
condicionamento e integração à vida silvestres de animais tão delicados e
importantes quanto predadores de topo de cadeia alimentar como são as
aves de rapina.
Em 2001, o sucesso americano foi repetido pelo Projeto
de Conservação do Condor Andino (Vultur Gryphus), conduzido
binacionalmente pela Argentina e Chile desde 1991, através da soltura,
em áreas de conservação, de
08 aves reproduzidas em cativeiro, concretizando
mais uma grande
vitória na luta contra o desaparecimento de outra espécie praticamente
extinta na natureza.
O êxito destes que são dois dos mais famosos programas
de conservação da vida silvestre em todo o mundo, embora também
pautado na competência dos profissionais envolvidos, deve-se, direta e
indiretamente, à um conjunto de conhecimentos e técnicas tão antigos
quanto a história da humanidade e que hoje conhecemos pelo nome de
falcoaria.
Mas o que é e em que consiste realmente a falcoaria?
Como ela surgiu e como pôde se tornar um elemento tão importante em
tantos programas de conservação da vida silvestre ao redor do mundo?
A palavra falcoaria ainda remete a maioria das pessoas
à passagens de filmes e romances históricos famosos onde cavaleiros
envergando brilhantes armaduras trazem em seu punho belos falcões com
estranhos adornos sobre a cabeça e fitas que balançam sob suas garras
quando as aves voam, deixando a luva do falcoeiro.
Poucas pessoas, entretanto, tem a noção correta sobre o
que realmente é a falcoaria, como e quando esta surgiu. Para responder
a essas questões temos de retroceder um pouco na história da
humanidade, cerca de três ou quatro mil anos atrás, até a época em que
sobrevivíamos da caça e coleta.
Certamente desenvolvida como uma forma de obter
alimento, a falcoaria é fruto da capacidade de observação e
raciocínio humano, culminando na captura de uma ave de rapina e
no
estabelecimento de relações de troca, sendo oferecidos à ave o
abrigo, cuidados e alimentos que esta necessitasse, em troca das
presas que apenas ela era capaz de perseguir e abater.
Assim surgiu a falcoaria, nome dado a ciência de
adestrar aves de rapina, considerada por muitos uma forma de arte,
devido ao alto grau de sensibilidade e dedicação exigidas para sua
prática.
Seu local de origem é incerto, porém, diversas teorias
apontam a Ásia Central, China e Pérsia como berço mais provável. Os
registros mais seguros sobre a idade da falcoaria são gravuras
ilustrando claramente um falcoeiro em atividade, encontradas no século
passado em ruínas na Mesopotâmia e datadas como sendo de 1700 a.C.,
contudo, registros mais antigos levam a crer na utilização de falcões
como presentes oferecidos a príncipes chineses durante a dinastia Hia
(provavelmente iniciada em 2205 a.C.).
A forma como sua prática chegou ao mundo ocidental
também é desconhecida. O registro mais antigo de sua presença na
Europa está representado pela ilustração de uma cena de caça aos
patos, em um mosaico datado de 500 d.C., localizado em Argos, na
Grécia.
Uma vez na Europa, bastaram 200 anos para que pudessem
ser encontrados praticantes da falcoaria entre pessoas de todas as
castas sociais, dos camponeses aos reis, para aqueles como forma de
obter alimento e para estes como uma forma de esporte e interação
sócio-cultural.
Por volta de 750 d.C. os primeiros manuscritos
ocidentais sobre o assunto começaram a ser escritos, cabendo destacar a
publicação de “De Arte Venandi cum Avibus”, vasto tratado escrito por
Frederico II, imperador da Alemanha, em 1247. Pouco a pouco a cultura
européia foi revestindo a falcoaria de uma aura nobre, associando sua
prática à sofisticação e cultura superiores. Dessa maneira, os reis e
grãos-senhores interessados em distinguir-se chegavam então a possuir
dezenas de aves, contratando um mestre falcoeiro para treiná-las e
mantê-las sempre em forma..
Neste período foram publicados os primeiros éditos de
proteção à fauna na Europa, proibindo especificamente a caça, maus
tratos ou apanha de aves de rapina. O preço de falcões treinados
atingia pequenas fortunas e o roubo dessas aves era punido com a forca
em algumas regiões da Inglaterra. Conta-se que um bispo, cujo falcão
fora roubado durante sua pregação, chegou ao ponto de excomungar o
anônimo ladrão.
Com a chegada das grandes navegações, descobriu-se que
a falcoaria florescera de forma paralela no continente americano. Os
primeiros relatos da existência deste tipo de atividade nas Américas
datam do século XVI e foram feitos por Cortês, o famoso conquistador
espanhol, que descreveu a presença de falcões treinados mantidos pelo
rei asteca Montezuma, no México.
A partir de 1792, com a fundação do High Ash Club, em
Londres, na Inglaterra, os entusiastas começaram a se organizar em clubes e
associações, dando início ao processo de modernização da prática com
a formação de aviários e intercâmbio de espécies, adoção de novas
tecnologias, uso de fichas de acompanhamento individual, estudo e difusão das técnicas de treino utilizadas em outras regiões, como
Arábia, Espanha, Japão, etc.
A
iniciativa inglesa estimulou o surgimento de novos clubes em vários
continentes, auxiliando à prática da falcoaria a obter regulamentações
legais especificas, como ocorre hoje na maioria dos países europeus,
Estados Unidos, Canadá, Nova Zelândia, México e América do Sul, entre
outros, garantindo a continuidade de sua prática, conhecimentos e
tradição até os nossos dias.
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